Sunday, March 12, 2006

LINDA QUANDO CHORA

(Por: Noches de Madrid)
Ela é linda quando chora.
Primeiro os lábios tremem involuntariamente. Depois os olhos se apertam, querendo esconderijo debaixo das sobrancelhas. E brilham feito vidro molhado. Grande efeito! Muito sedutor.
Aí vem o nariz. Tão miúdo, coberto de sardas. Depois das primeiras lágrimas a ponta incha e fica vermelha.
Como um moranguinho. Dá até vontade de morder!
E daí é o rosto inteiro avermelhado, inflamado de ira.
Molhado, brilhante de lágrimas. O beicinho contrariado. Os cílios salientes. Ela nunca pareceu tão cheia de vida quanto agora.
No começo era só tara minha. Mas virou mania.
Ela nunca foi chorona. Era uma moça doce, cheia deenergia, bacana. Ainda se usa bacana? É gíria do meu tempo. Ela não tinha vontade de parar pra se lamuriar.
Mas era frágil, mulher, né? Num dia particularmentesensível – nota vermelha na prova, briga com onamorado, qualquer bobagem assim – ela vibrou na minha freqüência. Sem querer, claro. Ninguém é louco de me atrair de propósito. Quando vi, já estava lá, colado a ela. Ela começou a soluçar. Toquei no seu ombro. Que onda! Energia pura. Juro, pensei que ia ter um orgasmo. Tive. Ou o que quer que um cara possa experimentar no meu estado.
Achei que era maldade eu me sentir tão maravilhoso enquanto ela se sentia tão miserável. Mas foi assim. Amenina chorou muito e eu entrei num gozo surreal.
Depois me afastei. Pesou na consciência. Ela foi se acalmando. Mas fiquei por perto, curioso, até certo ponto desejoso de ver se aquilo podia acontecer de novo.
Nunca mais fui embora. Ficava por perto quando ela telefonava para as amigas xingando a mãe, o pai, o namorado, a própria vida. Sempre arranjava um novo problema pra cultuar. A atração era mais forte do que eu. Precisava ficar perto dela enquanto fungava, gania, lamentava. Talvez por isso ela ficasse enchendo o saco de todo mundo. Eu roubava dela. Ela, dos outros. E o fluxo de energia não parava.
A paciência das pessoas tem limite. Logo ela não tinha mais colegas pra atormentar. Só havia eu ao lado dela nas noites sem sono, curtindo a seleção de canções prase enfiar de cabeça da fossa emocional, dividindo o travesseiro lavado de lágrimas. Só nós dois. Mas aí vinha aquele namorado. Ligava pro celular tarde da noite, lenga-lenga amorosa, fazendo perguntas, e ela disfarçava, engolia soluços, dizia que estava bem. Eu precisava dar um jeito nele. Cinema amanhã? Beleza.Vou junto.
E fui. Filme de comédia. Eu ria. Ela chorou o tempo todo. O cara deu um basta no meio da sessão. Saiu da sala, ela foi atrás aos prantos, eu pendurado no seu ombro. Bateram boca no estacionamento. Eu torcia, acaba com ele, termina com ele de vez...
Eu me apaixonei, confesso. Nem todas são tão lindas quando choram. Nem todas dão esse tesão no desespero.
Desde a década de 1960 eu não tinha nada assim. Caí fora muito jovem. A vida era chatinha, não tinha coisa melhor pra fazer a não ser encher a cabeça de bobagem, então peguei o carro do meu velho e pum, entrei com tudo num poste.
Fiquei decepcionado com a morte. Esperava coisa melhor. Vagar por aí cutucando bêbado, provocando brigas nas sarjetas, apavorando recém-finados em enterros. A coisa mais divertida que tinha pra fazer era colar em pai-de-santo e pedir pinga em terreiro.
Fui vadio por um bom tempo. Tudo mudou quando eu aconheci. Eu a queria só pra mim. E consegui. Depois daquele quebra-pau o sujeitinho parou de telefonar.
Ficamos a sós, finalmente.
Então ela parou de ir à faculdade. Preferiu gastar como analista. Era a tal da depressão, falavam. Depressão o cacete. Era eu. Sempre ao lado dela. Agarrado ao seu braço. Acariciando a sua nuca. Devorando-a sem pressa.
Hoje ela escreveu no diário:
“Não agüento mais. Quero morrer.”
É o meu dia! Tem que ser! O dia em que ela vai ser minha!
Certo, estou me precipitando. Precisamos trabalhar um pouco mais nisso. Mas não dou uma semana pra ela se entupir de comprimidos até desmaiar ouvindo P.J.Harvey. Ou pode ser naquela banheira do quarto da mãe dela, pulsos cortados, a água levando o sangue devagarzinho. É isso! Vou lhe dar essa sugestão.
Sussurrar no ouvido dela toda noite. Até chegarmos lá.
E quanto ela vier para este lado eu vou estar debraços abertos. Vou consolá-la, apertá-la contra opeito e explicar como as coisas são por aqui. Vamos fazer tudo juntos. Vai ser bom pra nós...Enquanto não acontece, fico aqui, no meu cantinho, paciente, previdente, observando.
Ela é tão linda quanto chora!

O beijo dela

(Por: Noches de Madrid)
O beijo dela. Fui pego de surpresa. Primeiro o nome.
Começava num rosnado e terminava em melodia. Rrr,vibrava, sotaque italiano. Depois, duas eles bem molhadas. Rafaella.
E essa coisa interessante que aconteceu primeiro nos meus ouvidos foi parar dentro das minhas calças. Ela viu o volume. Eu falei uma besteira. Levei um tapa no rosto, daqueles de arder na alma, e então o beijo.
O beijo dela.
Em um momento eu era um Apolo que ofuscava o brilho dos homens e incendiava o coração das mulheres. No outro, era uma sombra que a acompanhava com canina devoção. Um cão. Escorraçado e afagado. Conduzido àcoleira. Comendo migalhas. Ganindo de mágoa e babandode euforia.
Ela era loura, vigorosa, indecifrável, capaz de torcer o nariz para uma gargantilha de brilhantes e sorrir com malícia ao ganhar uma flor de calçada. Mas estou invertendo a ordem dos acontecimentos. Os primeiros presentes foram simples. Ela os apreciou. E a cada vez; me recompensou. O beijo dela acabou com minha paz.
Porque eu quis mais e ela, também. Agrados mais sofisticados. Mais caros. Ela virou minha vida do avesso. Virou meus bolsos do avesso.
Aparecia apenas quando queria. Chegava me empurrando, me arranhando, me jogando sobre a cama, rasgando as minhas costas com as unhas, tomando meu fôlego, me matando. Matando devagar. Sugando.
Depois, me xingava. Ia embora. Eu chorava em silêncio.
Eu a amava.
Eu a odiava. A bruxa peçonhenta. A fada encantadora.
Mulher incrível, inevitável, insuportável. Nunca dizia se voltaria. E eu esperava seu retorno, impaciente, dependente. Agitado em meu quarto como um tigre emexígua jaula. Muito café. Muitos cigarros. Muitas olheiras. Ela podia aparecer de madrugada e se eu não ouvisse a campainha ela não poderia entrar...
Meu corpo não enfrentava o dia sem uma noite ao lado dela. Sobre ela. Debaixo dela. Como fosse. Ela agarrava minha masculinidade, exaltava-a e então adestruía. Destruía-me. Fumava meu corpo como um cigarro barato e atirava a guimba no lixo.
Não há escravo sem mestre. Eu não existia mais sem ela. Sem o beijo dela. O beijo que me viciou, me deturpou, me extingüiu.
Ontem eu quis saber se havia outro. Ela riu. Meu amor era piada para ela. Disse que teria quantos amantes quisesse. Que eu não era homem para ela. Fraco.
Pequeno. Insuficiente. Chamei-a de vadia e ela me estapeou a boca. Um fio de sangue muito ralo. Ela lambeu meu lábio partido e me chamou de menino.
Ela tinha poder sobre mim, um poder rude e cáustico.
Mas me disse uma palavra terna. Menino. Isso bastou para fragilizar o elo.
Mas ela vai voltar hoje para reforçar o vínculo. Sabe que deve fazer isso ou vai me perder. Ou enlouqueço e me atiro pela janela.
Ela vai chegar jogando a bolsa sobre a mesa, me empurrando para o quarto. E vai me dar um único privilégio, deixando-me deitar sobre seu corpo. E vai me insultar gritando enquanto empurro meu sexo dentrodo dela. E eu vou amá-la. Um homem deve fazer o que énecessário.
Na hora em que ela gritar como uma soprano em êxtase eu vou agarrá-la pelos cabelos. Os cabelos muito longos, muito louros. E vou fazer com eles uma forca dourada. E passá-los com delicadeza em torno do seu pescoço arfante. Apertar com força. Deixar que as unhas vermelhas lacerem meu peito enquanto o corpo exuberante se debate sob o meu, querendo fugir, querendo viver. Porque um homem deve fazer o que é necessário.
E então Rafaella deixará de ser. E eu voltarei a ser o vira-lata magro, sem coleira, sem nome, mas livre.
Que os tabacos e uísques e drogas do mundo me aprisionem. Que eu possa ser um viciado, um perdido.
Serei um miserável de sorte se, mergulhado em outra decadência, eu possa me esquecer de Rafaella.
E do beijo dela.